Areia , ferro e cimento

Essa caixa guarda muita coisa.

Sonhos, alegrias tristezas e provavelmente um livro de Fernando Pessoa.

Ela está cheia de mistérios.

Admirando fico a beleza desse prédio.

Imagino quantas histórias em cada janela.

Penso em quem está por trás dela.

Dizem ser muito seguro,

Pois é difícil pular o muro.

Câmeras por todos os lados e pessoas exigentes.

Da pra evitar quase tudo, 

Se escondendo atrás do muro.

Tem piscina mas ninguém usa,

Mas se alguém ousar,

O dedo logo acusa.

Da pra fugir de muita coisa.

Só não dá para fugir das pessoas.

Lá também entra frustração.

Existe crime e muita malcriação.

Lá dentro também mora a inveja,

E ela odeia festa.

Lá dentro mora o orgulho,

Mas está na sombras do muro.

Pouco importa o frio na portaria.

Se a cancela não abrir aí ligam para baixaria.

Lá existe o amor,

Não sejamos tiranos.

Mas lá ele canta tão baixinho, 

Tem medo de incomodar fulano.

Areia ferro e cimento.

Ali também mora o lamento.

Crianças já foram jogadas,

Em uma mala um corpo estava.

Na crise lá do alto se tinha a vista perfeita,

Foram vários que saltaram rumo a sargeta.

Areia, ferro e cimento.

Panelas batem na janela,

De dentro do muro tocou vunvuzela.

Protesto por mais respeito e humanidade,

Uma contradição da própria sociedade.

Lá dentro é muito bonito,

Mas quem se lembra do faxineiro Sr. Benedito,

A essas horas é humilhado,

Tem pó em cima do carro.

O carro é de luxo,

Os filhos desse senhor precisam encher o buxo.

Areia, ferro e cimento.

Essa é só mais uma voz ao vento.

Não se deixe enganar, 

De trás do muro é possível amar.

O piso é frio e muito lindo, mas quase nunca tem alguém sorrindo.

Areia, ferro e cimento.


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